sexta-feira, 31 de outubro de 2025
Sentir, logo cedo, o pulsar do meu coração mais acelerado que antes. Ao abrir os olhos, percebo mais um lindo amanhecer. Estou imóvel por uma fração de segundos; perco o sentido de quem sou, onde estou e o porquê de todas as coisas. Nunca me ocorrera antes tal questionamento inconsciente.
Logo volta a mim a consciência que me fugira. No entanto, ainda assim, indago a mim mesma a respeito das questões da vida: por que uns fardos são mais pesados do que outros?
Penso na criança que fui. Naquela que carregou o que não era dela, que guardou calada o peso do desejo dos outros. Refiro a mim mesma, quanto todos os gritos silenciosos deveriam ter sido ouvidos, quando em meus olhos O medo que morava logo virou ódio. Depois, só sobrou dor.
Inexplicável o que se sente, incompreensível o que se ouve. E ainda hoje, lamentavelmente resquícios de memórias afligem camadas intracelulares que vão para além do meu corpo — feristes também minha alma.
Ferida que não cicatriza Dor que não se passa, o sorriso se tornou minha maior arma.
Próximo Tema— Mim Permitindo…
quarta-feira, 23 de julho de 2025
terça-feira, 22 de julho de 2025
Tem gente que olha pra ela e pensa: “essa aguenta tudo”.
Porque não chora em público, porque não faz escândalo, porque não vive se queixando.
Acham que ser forte é natural pra ela. Que ela nasceu pronta. Mas não enxergam o preço.
Ela não tem tempo pra “mimimi” — não porque não sente dor, mas porque se parar pra sentir, desmorona. E ninguém aparece pra recolher os pedaços.
Então ela engole, se arruma, cuida da filha, resolve os boletos, dá risada na rua e segue.
Segue como quem tem pressa, mas às vezes queria mesmo era só parar. Respirar. Ser cuidada.
Ser forte virou obrigação. Porque se mostrar frágil é abrir espaço pra julgamento. “Tá querendo chamar atenção.” “Sempre tem um drama.” “Mulher preta tem que ser guerreira.”
Ela escuta isso sem que ninguém diga. Vem no olhar, no tom, no jeito que esperam dela maturidade, equilíbrio, resistência.
Mas hoje, não.
Hoje a leonina tá sensível. Não quer ouvir “vai passar”, “você é forte”, “segue em frente”.
Ela só quer um colo quente, um silêncio seguro, um cafuné que não cobre nada em troca.
Hoje, só por hoje, ela quer existir sem armadura. Sem ter que se explicar. Sem precisar provar que dá conta.
Porque mesmo as mais fortes merecem descanso.
Mesmo as que parecem inteiras, às vezes só querem ser abraçadas por alguém que entenda:
ser firme o tempo todo também machuca.
sexta-feira, 18 de julho de 2025
A ingenuidade — ou a ignorância que insiste em se manter confortável — é uma praga silenciosa.
Ela tá no meio da sociedade, passando de boca em boca, como se nada fosse. Como se palavras não tivessem peso. Como se a história não tivesse deixado cicatriz.
Você tá num ambiente qualquer, toda linda, com sua cor acesa, com sua presença forte.
E aí vem um cara — branco ou até mesmo preto — com aquela pose de gostosão, sorriso torto, ar convencido, e solta:
“E aí, mulata, gostosa…”
Ou pior, fala achando que tá elogiando.
Fala como quem te coloca num pedestal, mas com os olhos lá embaixo, entre suas pernas.
E lá vou eu, mulher preta, adulta, consciente, dar aula pra gente crescida.
Explicar que “mulata” não é charme, não é carinho, não é nada além de um insulto polido.
É o resquício da mentalidade escravocrata que ainda nos enxerga como produto — não como pessoa.
Porque o termo “mulata” vem de mula: animal híbrido, nascido da mistura de cavalo com jumenta.
A palavra carrega no som o veneno da desumanização.
Historicamente, foi usada pra nomear a mulher preta de pele mais clara, que “servia” no fundo das casas, mas também na cama dos senhores.
Era a mulher que não era branca o suficiente pra ter direitos, nem preta o bastante pra ser poupada do desejo animalizado do colonizador.
E até hoje isso escorre pelos cantos da cultura.
A “mulata do samba”, a “mulata do carnaval”, a “mulata do pecado” — tudo isso reforça a ideia de que a mulher preta só tem lugar se estiver disponível, dançando, sendo olhada.
Mas nunca como potência, nunca como sujeito. Só como corpo.
Não é inocente. Nunca foi.
Quem ainda chama uma mulher de “mulata” revela o quanto ignora a história, ou pior: sabe, mas não se importa.
Porque é mais fácil manter o termo, rir da situação, do que rever os próprios preconceitos.
A gente já aguenta demais. E não precisa aceitar mais isso.
Se o seu elogio vem de uma palavra que desumaniza, guarda ele pra você.
Aqui, o que queremos é respeito.
E pra mulher preta, o mínimo deveria ser o básico. Mas até isso a gente ainda precisa ensinar.
sexta-feira, 11 de julho de 2025
Ela aprendeu cedo a se fazer abrigo. Enquanto outros buscavam consolo, ela se tornava chão. Era o tipo de mulher que se reerguia em silêncio, com os próprios braços, e ainda estendia a mão pra quem precisasse. Não porque quisesse provar algo, mas porque sabia que esperar já a fez perder tempo demais.
Carregava no olhar a firmeza de quem já foi desacreditada, mas nunca se perdeu de si. Tinha dias em que o peito pesava mais do que os ombros aguentavam, mas ainda assim, ela ia. E ia inteira. Sem metade, sem desculpas, sem maquiagem emocional.
Não romantizava a própria força. Apenas não via outra opção além de seguir. Tinha em si uma coleção de feridas bem cuidadas — cicatrizes que não viraram bandeira, mas memória. Doía às vezes, claro. Mas era uma dor conhecida, mansa, que lembrava a ela quem é.
Ela nunca pediu colo. Não por orgulho. É que aprendeu, entre tropeços e silêncios, que colo demais pode embriagar, pode atrasar. E ela sempre teve pressa de viver — mesmo quando tudo doía.
Não vivia com armadura, mas com estrutura. Era sensível, mas não frágil. Sabia ouvir, sabia calar, sabia cortar laços sem culpa quando o coração deixava de caber ali. E por mais que, às vezes, sentisse falta de um ombro, ela seguia. Porque o mundo nunca parou pra perguntar se ela estava bem — então ela parou de esperar.
Hoje, depois de tanto atravessar, ela encontrou o que nem sabia que procurava: paz. Não uma paz ensaiada, não uma calmaria superficial, mas aquela que vem depois da tempestade, quando tudo desacelera e o silêncio já não ameaça — conforta.
Mas a mente, acostumada ao caos, ainda não entende. Ainda vasculha o horizonte como quem espera a próxima dor. Porque quem sobrevive por tanto tempo em estado de alerta não desliga do dia pra noite. Mesmo em tempos bons, ela anda com cautela. E não é medo — é memória.
Ainda que esteja tudo bem, ela não se entrega ao conforto. Não porque não queira, mas porque aprendeu a seguir mesmo sem chão. E talvez seja por isso que continue firme: não porque precise lutar sempre, mas porque já não sabe viver de outro jeito. A paz chegou. Só que ela ainda precisa ensinar a própria alma a descansar.
E esse texto é sobre mim. O blog, na verdade, se tornou uma extensão do que não cabe mais em silêncio — uma espécie de desabafo que sangra bonito. E a você, que talvez se reconheça aqui… a quem, sem querer, magoei com meu jeito bruto de me apegar rápido e ir embora ainda mais depressa: não te devo desculpas. Retiro as que pedi. Você teve o melhor de mim por um tempo. Ao invés de me culpar por ter partido, talvez devesse agradecer por ter se sentido vivo.
Foi só isso que eu deixei: um motivo, uma lembrança boa, um suspiro fora do roteiro. Nada mais. Ninguém nunca me mereceu por completo — nem por tempo demais. Desfrutem da memória que essa jovem senhora teve a generosidade de oferecer. Porque mesmo quando ninguém me abraçou inteira… dentro de mim, eu apreciei por completo a intensidade.
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