quinta-feira, 29 de maio de 2025

Ah, nossa amada cidade! Meses atrás, comemoramos o aniversário da cidade com dois dias de pura farra, cada um recheado com mais de cinco cantores — porque, claro, a prioridade é fazer o povo dançar, não andar em rua calçada. E agora, pra não perder o embalo, temos três dias inteiros de festa junina, com fogueira, forró e aquele cheiro de milho cozido misturado com promessas não cumpridas.

Enquanto isso, nas ruas das comunidades vizinhas, o calçamento tá igual promessa de político: começa, para, some, reaparece só quando dá ibope. A única coisa que avança é o mato. E o posto de saúde? Ah, uma comédia! Um médico só (isso quando aparece), e um time de enfermeiras que atuam como fiscais do padrão local: olham pra sua cara, perguntam de onde você é e decidem ali, no olho, se você merece ser atendida. Se não falar no sotaque certo ou usar o short jeans sagrado com a blusinha de malha justa, já era. Dizem que seu nome não tá na ficha sem nem olhar. Haha típico .

Isso aconteceu comigo, 2022. Fui tomar a vacina da COVID, inocente, achando que era cidadã como qualquer outra. Esqueci que aqui atendimento é por afinidade, não por necessidade.

Ah, e se por um milagre você for atendida e o médico te pedir exames... já prepara o coração. A média de espera é de 10 a 11 meses. Isso mesmo: quase um ano pra saber se tem algo errado com sua saúde. Até lá, vai que o problema se resolve sozinho — ou você morre antes, o que economiza pro SUS.

Desde então, Seabra virou minha capital oficial. Faço tudo por lá. Porque, me perdoem os patriotas da terrinha, mas esse lugar não vai pra frente enquanto as vagas de emprego forem preenchidas por “primas da prima da cunhada” que mal sabem ler, quanto mais falar com alguém sem grosseria. Só ocupam espaço e barram quem realmente entende do que tá fazendo.

Depois de quase cinco meses por aqui, entendi direitinho o estigma: "baiano é preguiçoso". Não somos todos, claro. Mas a cultura do “deixa assim mesmo”, do “resolve depois”, do “mas vai ter festa, viu?”... essa aí pega. A gente adora tudo mastigado, e qualquer espantalho que sorria já nos engana.
Falta calçamento? O hospital tá em obras há mais de dois anos? Bota trio elétrico, chama umas bandas, enche a praça de som, e pronto: anestesia coletiva. O povo bebe, dança e acha que tá tudo certo.
Então é isso. Viva as festas juninas! Viva os dois dias de aniversário da cidade! Viva a ilusão bem embalada, com bandeirinha colorida e licor debaixo do braço. Porque aqui, se a realidade incomoda, a gente toca um forrozinho e faz de conta que tá tudo bem.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

 Falar sobre o Haiti é abrir uma fresta no peito. É impossível pensar naquele país sem sentir um nó na garganta. Durante muito tempo, nos ensinaram a vê-lo apenas pela dor, pela miséria, pelas tragédias. Mas o Haiti é muito mais do que as manchetes contadas de fora. Muito mais do que querem que a gente veja.



A partir da história — e da oportunidade de conhecer de perto o país e seu povo — me senti em casa entre eles. Me envolvi com a culinária, com a língua, com os costumes. Em cada canto, algo me puxava pra mais perto, como se eu já tivesse pertencido àquele lugar antes mesmo de chegar. O povo haitiano carrega a história no sangue e, no rosto, uma expressão de força que talvez nem eles saibam que têm. Não é aquela força de propaganda, superficial, que romantiza a dor. É uma força ancestral, silenciosa, que se manifesta no gesto simples de continuar. E continuar, no Haiti, é um ato político.

É impossível falar do Haiti sem falar da luta constante por soberania. Um país que pagou caro demais por ter sido o primeiro a se libertar da escravidão. Desde então, nunca deixaram o Haiti em paz. Potências estrangeiras, ocupações disfarçadas de ajuda, ingerências políticas, interferências econômicas, tudo sempre muito bem maquiado. É um povo esmagado pela ausência de oportunidades, abandonado nas “favelas” — nos bairros mais pobres — onde falta tudo, menos dignidade. Um lugar onde o crime não nasce do mal, mas da miséria e do abandono. Onde a sobrevivência se torna um desafio diário, enquanto os olhos do mundo fingem não ver, ou escolhem ver apenas o que convém.

E mesmo assim, o Haiti floresce. Há beleza no Haiti. Muita. Está na música que ecoa pelas ruas, nos pratos apimentados cheios de sabor e história, na forma como se dança, se celebra e se resiste. Está nas crianças que correm descalças, mas com os olhos mais vivos que já vi. Está no riso alto, no abraço quente, no jeito de acolher quem chega. E está, sobretudo, na fé inabalável de quem acredita que ainda há um amanhã.

Foi também por isso que doeu tanto perder o presidente Jovenel Moïse. O assassinato dele me atravessou. Ele era um homem que começou a fazer diferença, que se recusava a abaixar a cabeça para o jogo sujo que quer manter o país de joelhos. Não se curvou, e por isso, muito provavelmente, foi morto de forma covarde. Sua morte foi mais uma ferida aberta na alma de um povo que já sangra há séculos, mas que ainda assim se recusa a morrer.

Sabe quando alguém te chama de guerreira? Às vezes penso que nem sabem o peso dessa palavra. Eu não sou guerreira — eu apenas vivo. Mas o povo haitiano, esse sim, sobrevive. E como já é do conhecimento de todos, eles suportam, enfrentam e seguem em frente. Muitos, quando não aguentam mais, partem. Cruzam fronteiras em busca de dignidade, levando consigo o que têm: esperança, coragem e identidade. Enfrentam o preconceito, o racismo, a xenofobia — mas seguem. Porque desistir nunca foi uma opção.

Eles não carregam apenas pele preta e força física. Carregam caráter. Alegria de viver. Uma dignidade que insiste em florescer, mesmo quando o mundo parece querer enterrá-la. É impossível olhar pra eles e continuar sendo a mesma pessoa.

Foi o Haiti que me mostrou que resistência é mais do que discurso bonito. É prática diária. É levantar todos os dias sabendo que o mundo espera que você desista — e mesmo assim seguir. Se algum dia eu esquecer quem sou, é nas histórias do Haiti que vou me lembrar. 


terça-feira, 27 de maio de 2025


Essa foto foi tirada em São Paulo, no ano de 2020. Um ano estranho, pesado,

marcado por distâncias e perdas. Mas, pra mim, foi também um tempo de descoberta.

Ali, entre as ruas suadas da zona sul, os ônibus lotados, os sotaques cruzando avenidas — eu me senti viva. São Paulo me deu liberdade. Com todos os seus ruídos, sua pressa e sua frieza, a cidade me abraçou.

Foi lá que, pela primeira vez, senti que cabia, E ao mesmo tempo, era estranho: estar em casa tão longe de onde nasci. Porque no resto do Brasil, mesmo com a mesma língua, eu era tratada como corpo à parte. Como alguém que só serve enquanto obedece, mas que incomoda quando pensa. São Paulo me deu anonimato — e no anonimato, encontrei espaço pra ser eu. Uma mulher negra. Inteira. Sem precisar explicar nada.

🤝 Entre haitianos, eu me reconheci

Foi nessa época que me aproximei de imigrantes haitianos. Pessoas que carregam no corpo a dureza da travessia e no rosto a firmeza de quem não se curva.

Ali eu vi força. Mas não a força forçada, masculina, colonial. Vi a força ancestral, aquela que não se explica, só se sente.

A que resiste em silêncio, a que trabalha o dobro, a que dança depois de chorar.

A que tem alma, A cultura haitiana me marcou profundamente. A forma como eles mantêm viva sua língua, sua história, sua fé. Como transformam dor em ritmo, perda em comunidade. A dignidade deles não se compra, não se negocia. É dignidade de quem sobreviveu a tudo que tentaram apagar. E ao lado deles, eu percebi uma verdade cruel:

No Brasil, eu sou brasileira só no RG. Na pele, no tratamento, nos olhares, sou estrangeira, mas ali, com eles, fui vista. E mais: fui compreendida.


🇭🇹 O Haiti tem alma. E eu carrego parte dela comigo.

Essa camiseta que uso na foto foi um presente. Não só de tecido — mas de memória, é símbolo de um tempo em que eu não precisava me explicar.

De um amor que me viu além da carne. E é por isso que essa imagem não pode ser lida como simples vaidade, ela é memória afetiva, É uma declaração silenciosa de que minha identidade vai além de bandeiras. Porque eu sou feita de travessias, de luta, de corpos que vieram antes de mim.


sábado, 17 de maio de 2025



 Sabe quando você começa a namorar achando que vai ser foda, leve, divertido… e aí cinco meses depois, você só quer SUMIR? Pois é. Eu tô exatamente nesse ponto. Tô prestes a terminar um namoro e, sinceramente, nem sei como aguentei até agora.

Pra começar: ele é chato. Não é só um "chato fofo" que se preocupa, não. É o tipo de chato que enche o saco. Fica me perguntando onde tô, com quem tô, o que tô fazendo… parece até GPS humano! E isso me irrita profundamente. Liberdade, amor? Já ouviu falar?

Segundo: não ganho nada com esse namoro. Não tem troca, não tem aprendizado, não tem crescimento. É tipo uma assinatura de streaming que só trava: você paga com seu tempo e não recebe conteúdo de qualidade.

Morar com ele? Jamais. Minha presença é muito valiosa pra eu me jogar num desequilíbrio desses. E digo mais: pra fazer a louca, eu preciso de pelo menos um pouco de reciprocidade emocional. E isso aqui tá mais vazio que geladeira de solteiro no fim do mês.

Confiança? Não rola. Eu simplesmente não sinto. E se tem uma coisa que eu aprendi na marra é: se não confia, não adianta.

E olha essa: ele quer ter filhos. Do nada filho, eu sou bem louco de ter filho com uma pessoa dessa! 

Agora… vamos falar de sexo. Ou melhor: que sexo? Porque o que acontece é um tédio total. Um saco. E ainda tem o bônus do beijo: o cara beija mal e me machuca! Eu sei que sou gostosa, meu amor, mas não precisa me engolir. Um beijo não é ataque de tubarão.

E o estilo dele… misericórdia. Eu já falei, já comprei roupa, já sugeri… e nada. Ele se veste como se tivesse perdido uma aposta. E não é falta de gosto, é falta de vontade mesmo.

Pra fechar com chave de latão: ele resolveu que eu sou a responsável pela vontade dele de voltar a viver e sonhar. OI??? Eu sou mulher, não psicóloga, nem fada madrinha.

E a cereja do bolo: ele MENTE. Mente e tenta me manipular. Mas, querido, eu não sou manipulável. Tédio, mentira, controle, beijo ruim, zero confiança… tem como isso dar certo?

Então, sim. Eu vou terminar. Porque a vida é curta demais pra estar em um relacionamento que te desgasta mais do que te acrescenta. Quero amor leve, honesto e gostoso — não um roteiro de drama.


quarta-feira, 14 de maio de 2025

Chegar aos 29 foi como entrar num quarto meio bagunçado, mas eu finalmente sei onde estão as coisas. É o último gole antes dos 30 — e ele vem forte. Às vezes amargo, às vezes delicioso. Mas o que importa é que agora eu sei engolir sem fazer careta.

A tal liberdade não veio com gritos, veio com um sussurro. Não é fazer tudo o que quero, mas ter o poder de dizer isso aqui eu não vou mais suportar. Eu não preciso mais me convencer de que aguentar chefe escroto ou trabalho que me suga faz parte do “processo”. Foda-se esse processo. Se não me respeita, eu não fico. Se não me inspira, eu não fico. Se me adoece, eu saio.


Meu corpo também mudou, sim — e ainda bem. Aos 29, eu me olho pelada no espelho e penso: caralho, eu sou foda. Não porque alguém disse, mas porque eu sinto. Sexo hoje tem gosto de autoconhecimento. Eu sei o que gosto, como gosto, e não tenho vergonha de pedir. Ou de não querer. Transar comigo mesma virou um dos meus rolês , e sinceramente? Tô me saindo muito bem melhor agora.

E a grana? Bom, ainda não estou rica, mas também não tô mais desesperada. Liberdade financeira, pra mim, é abrir o extrato sem ter taquicardia. É comprar uma roupa porque eu mereço, e não porque tô tentando tapar buraco nenhum. Aprendi a investir, a guardar, mas também a gastar sem culpa. Trabalhei pra isso, porra. 

Emocionalmente, 29 tem sido sobre fazer faxina. Eu tirei da sala os fantasmas que estavam ocupando espaço demais. E abri uma janela pra aquela menina que ainda mora em mim — a adolescente dramática, intensa, que ainda chora ouvindo música e se apaixona fácil. Ela não é um erro. Ela é a faísca. Eu só precisei aprender a ouvir sem deixar que ela dirija o carro. A minha elegância hoje não tá no salto (às vezes nem no sutiã). Tá em dizer “não” com um sorriso no rosto. Em ligar o foda-se com ternura. Em deixar de seguir quem me fazia sentir pequena. Em fazer terapia. Em dormir em paz. Em rir de mim mesma. Em me abraçar no caos sem me chamar de fracarr.

Eu ainda não sei tudo — e espero nunca saber. Mas eu entendi que viver é essa dança entre a mulher que sustenta e a menina que sonha. E honestamente? Isso é mais bonito do que eu imaginava. 

 


Chegar nos 30 é tipo: “Ué… já?!”

Você olha pra trás e vê tanta coisa vivida, errada, certa, doida — e mesmo assim ainda sente que tá começando. É confuso, é bonito e às vezes é só… cansativo.


Criei esse espaço porque escrever me alivia. É onde eu organizo a bagunça da cabeça e do coração. Aqui vou falar de tudo um pouco: o que penso, o que sinto, o que tô tentando entender. Vai ter desabafo, vai ter opinião, vai ter um monte de coisa que talvez só faça sentido pra mim — ou talvez faça pra você também.


Não espero ser exemplo de nada. Só quero ter um cantinho onde eu possa ser eu, sem filtro, sem fórmula.


Se você caiu aqui, seja bem-vindo.

Puxa uma cadeira, pega um café (ou uma taça) e vem comigo.

Porque cheguei nos 30… e a conversa só tá começando.


ROTINA

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